Paternidade & solidão
nem tudo são fraldas
“Alexa, som de chuva!” Falamos com Clara Teresa nos braços, enquanto ela trava uma luta inútil com o sono. Ora sorri, ora solta umas falinhas estranhas, ora chora alto. Muito alto, às vezes.
Clara Teresa já está com um pouco mais de 3 meses.
Isso significa que estamos, minha esposa e eu, há 3 meses numa loucura chamada vida real com uma bebê. Be real.
Não existe mais programações, nem planos. Tudo é pautado pelo ritmo multipolar da nossa “espequerruchinha”. Ainda que eu tente alguma redenção sobre planejamento, nada dá certo quando o salto de crescimento grita. Ou a fome.
Nutri ok, matrícula no CrossFit, comprei “Hábitos Atômicos”, imprimi calendários. Não rola. Não como o previsto.
Se ela acorda, chorando ou sorrindo, no meio da madrugada, não há força para um treino de pernas às 6h da manhã. Muito menos para um wood com nomes complicados.
Dizem que tudo volta ao normal agora, passando os três meses.
Não existe isso. Cada dia que passa o normal agora é ela. Eu que lute com meus Back squat ou Treino A, quando der e se der.
"É aqui que eu pertenço.” Beth (Unckle Frank)
Como deu, assisti e fui ferido por The Ring Of Power. Lembrei desta fala do Papa Francisco:
“A visão de uma obra cinematográfica pode abrir várias fendas na alma humana. Tudo depende da carga emocional que é dada à visão. Pode haver evasão, emoção, risada, medo e interesse. Tudo está ligado à intencionalidade na visão, que não é um simples exercício ocular, mas algo mais. É o olhar sobre a realidade.”
Papa Francisco aos membros da Associação Cinematográfica Católica Italiana
A série versou sobre a necessidade das conexões humanas, questionando quão genuínas são essas conexões, e o que acontece quando não nos permitimos confiar uns nos outros. Sobre o quanto precisamos da fraternidade e o quanto nos ver refletidos no outro molda quem nós somos.
Doeu ouvir alguns diálogos. Por motivos muito particulares e por me sentir com um tipo novo de solidão: solidão paterna.
Estou no momento mais louco da minha vida, ficando presente como posso na vida dos meus familiares e amigos distantes.
Minha filha é maravilhosa. Uma bênção com toda beleza que essa palavra possa ter: saudável, risonha, fofinha, linda tipo a mãe. Não quero falar (mais) sobre ela.
Vou falar de mim.
A paternidade é incrível. A força do parto impacta o homem. Tê-la nos meus braços logo no dia dos pais foi viver I Cor 2, 9:
"É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.*"
Mas nem tudo são alegrias.
Ouvi todo mundo falar sobre as noites sem dormir, as trocas intermináveis de fraldas, os gastos, a falta de tempo (como disse no ínicio), as preocupações com a saúde e desenvolviomento do bebê, dores nas costas etc. Quem dera essa fosse a parte desafiante.
Exaustão, vitalidade se esvaindo, apatia. Tomando multivitamínicos como se aquelas pílulas fossem mágicas. Ainda tem o trabalho com suas metas e nomes complicados NPS, OKR´s, Dailys, CPL, RoadMaps…
Toda vez que chega uma mensagem: Oi, como vocês estão? A resposta é automática: Estamos ótimos! Nossa filha é linda! Um momento inesquecível.
Mas estou exausto, angustiado, triste, me sentindo só, disfarçando lágrimas.
Eu me sinto com vontade de chorar em boa parte do tempo. Loucura, né?! Um momento tão maravilhoso como esse nas nossas vidas e eu angustiado.
Nem mencionei que minha barba está falha e a caspa está como neve nos ombros.
E a Carol? Dá pena sempre. Afinal, o peito é dela. Está sozinha em casa dando mais do que pode como mãe de primera viagem. Como dá, faz as unhas, prancha o cabelo e arrisca um terço sonolento enquanto a boquinha inquieta da nossa filha suga o que pode da mãe.
É evidente que para minha esposa está bem pior. Não querer dividir isso com ela é uma forma de poupá-la.
Dois zumbis. E não é frase de post.
Tudo piora pelo quando se tem uma personalidade que não gosta de pedir ajuda.
Sinto falta dos meus amigos e da vida comunitária. Não sei como eles poderiam especificamente me ajudar com tudo o que descrevi, mas sei que preciso deles.
O diálogo entre Elrond e Durin no elevador (EP 3) me fez chorar. Há uma dor pela ausência de quem é querido. Ainda mais quando a vida acontece.
A mudança para outro estado intensificou tudo. São novas pessoas, nova cultura, novos códigos para entender, novos vínculos a construir quando precisamos de base para nos apoiar.
A vida realmente chega a doer.
No meio disso tudo encontrei um livro que estou tomando em pequenas doses: Viciados em mediocridade - Cristianismo Contemporâneo e as Artes de Frank Schaeffer.
Retrata o triste estado das coisas que estão em abundância por aí na criação midiática cristã. Embora o autor fale sobre produção de artes, é muito fácil pensar o mesmo sobre produção de conteúdo. E quando a produção de conteúdo vira uma idealização da vida real? E quando a vida espiritual vira produto de marketing? E quando a produção de “conteúdo cristão” não passa de uma repetição dos hacks superficiais mundamos?
A tal coragem criativa.
Ter coragem criativa, como nos disse o papa Francisco, não é entrar neste ritmo doentio e, na maioria das vezes, sem sentido do marketing.
O mesmo papa nos disse que nosso nome não é um slogan. Nem nosso nome, nem nossa vida.
A tal coragem criativa tem muito mais a ver com ter um coração inflamado que tudo realiza e a tudo se dispõe.
Mas de alguma forma cansamos dessa frase pronta e procuramos outras citações, em outras fontes, argumentos para nossa rebeldia e superficialidade.
Ter um coração inflamado para suportar a solidão.
Ter um coração inflamado para ser presença quando, na verdade, eu quero colo.
Ter um coração inflamado para viver o ordinário.
Como a vida se apresenta.
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Livro citado aqui




